Arteterapia: um elogio à materialidade dos objetos na prática clínica*.

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Certa vez, numa visita à Pinacoteca de São Paulo, deparei-me com uma escultura em pedra do artista inglês Henry Moore[1]. Ele enfatizava em suas obras a necessidade de se envolver diretamente com os materiais (principalmente pedra e madeira), respeitando o caráter particular de cada um deles, em vez de tentar “fazê-los parecer outra coisa”. Isso porque, segundo Moore, “a pedra, que é dura e concentrada, não deve ser modificada para ganhar aspecto de pele macia – não deve ser forçada, para além da sua estrutura, até um ponto de fraqueza. Ela deve conservar sua ‘pedritude’, sólida e tensa” (MOORE, 1934 apud SÃO PAULO, 2005).

Fui capturada por uma de suas esculturas (figura abaixo) que, por minhas associações, resumia de modo eloquente e de um ponto de vista artístico o tema de minhas pesquisas em arteterapia, em diferentes aspectos: desde a ênfase ao propor o diálogo da consciência com a materialidade do mundo; passando pelo deslocamento das concepções psicológicas que tomam os materiais simplesmente em seu sentido representacional ou projetivo, e finalmente propondo um elogio à imaginação e à expressão na prática clinica. Nesta peça, em especial, parecia-me que as duas pedras estavam a se olhar e a se indagar, num diálogo com alguma tensão – talvez pela diferença abrupta de tamanho, ou pela disposição frente a frente, no plano horizontal.

A maior talvez pudesse sintetizar o aspecto humanizado do diálogo: ela tem dois furos na parte superior, que evocam a imagem de um rosto com olhos; a menor, em seu estado mais bruto, não tem praticamente nenhuma interferência humana. Ainda assim, pelo modo como se “olham”, parecem nos incluir nesse encontro, mesmo que como expectadores.
Muito de meu trabalho e pesquisa como arteterapeuta surgiu de indagações sobre a materialidade dos objetos no setting, como se eu também pudesse ser pedra, olhando para esse pequeno pedaço de natureza, intrigada com seu mundo. Foi aí que surgiu a curiosidade pela relação entre o paciente e a matéria por meio das qualidades intrínsecas a ela. Uma vontade de indagar “o que essa pedra me diz a partir de sua temperatura, textura?”; “o que seus contornos e tonalidade provocam em mim?”. E, enquanto observava essa escultura na exposição, me veio à mente o seguinte diálogo:

Pedra grande: Oi, você viu quanta gente veio aqui só pra nos ver?

Pedra pequena: É mesmo, a gente fica tão exposta!
Que friozinho aqui nessa sala, né?

Pedra grande: Isso pra mim não é problema!
É a minha temperatura ambiente!

Pedra pequena: Eu queria mesmo era estar lá fora,
sentindo o calor do sol e o frescor do vento…

Pedra grande: Ah, não! Ser uma pedra como outra qualquer?
Aliás, quando é que você vai ganhar olhos?
Talvez pudessem te arredondar de vez, também…
acabar com essas imperfeições!

Pedra pequena: Pra quê? Eu tô bem, assim, diferente de você,
Não tem por aí nenhuma outra como eu!

Pedra grande: Ah! É que aí você ia parecer gente!

Pedra pequena: Ué! Mas pra que parecer gente?
Tô bem assim, com minhas voltinhas!

Pedra grande: Isso é o que você pensa, se não fosse por mim, você já teria
sido atirada pra longe, no mato ou num riacho qualquer,
por causa da sua falta de expressividade!

Pedra pequena: Falta de expressividade? Como assim?

Pedra grande: Ah, eu tô querendo dizer que você só me acompanha nessas
viagens porque sua falta de identidade serve de contraponto
a tudo o que tenho de sentido, pelos traços que me deram!

Pedra pequena: Nossa! E eu que sempre imaginei que fosse o contrário!
Afinal, é por causa da minha pedritude que eu sou
pedra! Você, não, tá até imaginando que é outra
coisa! Crise de identidade?! Eu hein!

[1] Cabeça e Bola, 1934 – alabastro de Cumberland – comprimento 51cm – Coleção The Henry Moore Foundation – Foto: The Henry Moore Foundation Archive.
Henry Moore – uma retrospectiva – Brasil 2005: exposição organizada pelo British Council e pela Henry Moore Foundation; aberta para visitação de 12 de abril a 12 de junho de 2005 na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

*Santina Rodrigues, Analista Didata do IJEP, Psicóloga, Analista Junguiana, Arteterapeuta e Profesora do IJEP

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