Arteterapia Junguiana: modelagem em argila.

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Considerando os objetivos da arteterapia, vemos nos princípios básicos da psicoterapia junguiana uma série de caminhos que subsidiam plenamente a prática do arteterapeuta. O inconsciente criativo proposto por Jung, e também, a ênfase que este autor deu à necessidade de dar objetividade concreta aos conteúdos psíquicos por meio de formas e imagens, vêm de encontro às propostas práticas da arteterapia, embasando suas técnicas com profundidade, em termos teóricos.

No caso específico da modelagem, temos ainda mais um elemento para enriquecer essa prática, pois a argila é um material primordial carregado de referências arcaicas, que promovem um forte impacto na interação que o individuo venha a ter com ela. A argila silencia a mente e o espírito, mobiliza o corpo e harmoniza a respiração. Enfim, se oferece como um elemento que permite um diálogo intenso e ao mesmo tempo íntimo com a psique corporificada ou com o corpo psíquico, alterando-o em níveis mais aparentes e outros, mais sutis.

É comum ouvir de pessoas que iniciam o contato manual com o barro imbuídas do desejo de “fazer alguma coisa na argila”, sofrerem uma forte ansiedade e alguma frustração, justamente porque a argila se coloca como um outro que fala sua própria língua, que tem potencial e autonomia para se colocar na relação com aquele que a modela de modo desafiador, norteando o processo criativo, conforme a amplificaçao proposta por Von Franz (1988) inspirada nas ideias do alquimista Dor:

“Desse modo, a natureza prepara a matéria, para isso incluindo nela a forma, como o esperma na matriz; esta última produz, em consequência, como um embrião, as diferentes espécies de coisas. A matéria, então, pode parir.” (DORN apud VON FRANZ, 1998, p. 45)

A idéia de uma transformação simultânea ocorrida no sujeito e no objeto já foi comunicada há alguns séculos pelos alquimistas, tendo em Dorn seu principal articulador. A tentativa dos alquimistas era restabelecer à matéria o status de par-feminino no processo de criação, não apenas como elemento complementar, mas por sua própria natureza, como elemento vital tanto quanto o espírito, entendido como principio masculino.

Portanto, a matéria é reconhecida metaforicamente como uma contraparte viva e feminina do criador espiritual, é tida como uma divindade, e não apenas como algo que um deus teria produzido e moldado de acordo com sua vontade. Nesse ponto, pode-se perceber uma alusão àquilo que Jung apontou em sua introdução à “Psicologia e Alquimia” (JUNG, 1944/1994), isto é, o fato de que a alquimia(1) reconhecia o feminino como um princípio equivalente, não como algo que ficava à margem, mas sim como algo que tinha a mesma dignidade que o pai espiritual e deus-criador. A matéria era seu parceiro feminino, e por si mesma um princípio vivo.

 

Santina Rodrigues Oliveira – Analista Junguiana Didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, Psicóloga, Mestre e Arteterapeuta.

Nota de rodapé:

(1)“Pode-se dizer que a alquimia começou no século IA.C., com um período florescente na Grécia nos segundo e terceiro séculos, seguido por um declínio gradual, que durou até o décimo século. Durante esse período, os principais textos foram transportados e traduzidos para o árabe, e no sétimo e no oitavo séculos, nos diferentes pequenos países árabes, houve outro período florescente, após o qual a alquimia evoluiu para a história da química, seguindo o mesmo caminho que toda a fisica e a matemática. Por volta do século X, retornou à civilização cristã através dos árabes e dos judeus na Espanha e na Sicília, e de lá invadiu os países ocidentais, uniu-se à filosofia escolástica e assim prosseguiu em seu desenvolvimento ulterior.”(VON FRANZ, 1998, p.7)