A espera da desesperança para que as gaiolas sejam destruídas

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“A principal arma do opressor é a mente do oprimido” – Steve Biko

Começo esse artigo rememorando a frase da música “Pra não dizer que não falei das flores”, escrita e interpretada por Geraldo Vandré em 1968, proibida durante anos, porque fazia oposição à ditadura militar brasileira: Quem sabe faz a hora não espera acontecer. Também resgato a passagem da mitologia grega, que existe há mais de 4 mil anos, no episódio da caixa de Pandora, onde o único mal e praga que não foi solto foi a esperança. Por isso, Nietzsche em “humano demasiado humano” afirma que a esperança é um grande mal, criada por Zeus, para atormentar e enganar os homens diante do seu futuro incerto, com expectativas que nunca irão se concretizar, afirmando que “atinge-se a verdade através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo aconteça de certa forma.”

Sempre afirmo que a esperança anuncia a falta, retirando a possibilidade da felicidade do presente. Por esta razão, podemos dizer que a felicidade depende do desespero e, em contrapartida, as religiões dependem da esperança, conforme o sociólogo inglês, Henri Desroche (1914-1994) escreveu: “as antigas teologias preconizavam que a esperança seria a estratégia psicossociologia de uma aliança: a do homem com seu deus”, pois deixar de esperar implica aprender a lidar com a realidade tal como ela é, e a tirar proveito de todas as possibilidades que o estar inserido no presente possibilita. Isso não impede que as pessoas façam planos, assumam compromissos agendados e não abram mão de suas ideologias e até utopias em busca de um mundo melhor. Mesmo assim, todas as possibilidades futuras são meras possibilidades que irão contribuir para que o agora seja vivido em sua plenitude e integralidade.

Nessa linha de argumentação, podemos arrazoar que o ser humano possui uma deficiência intrínseca e está fadado a ser para sempre “faltante”. Isso é o que a psicologia analítica chama de angústia essencial ou existencial. Entretanto, este desejo de preencher o que lhe falta é o que impulsionou o homem para a vida e que o leva a ser. É claro que, devido à pressão do consumo, houve a substituição dos desejos da alma pelas necessidades do corpo. Aqui se instala a grande diferença, pois, as necessidades são possíveis de serem saciadas, enquanto os desejos jamais. Desejar é buscar vida, sentido e significado. Daí porque um homem desejante é um ser saudável, mas isso não significa que desejar e ter esperança sejam a mesma coisa. Eles não podem ser confundidos. Neste contexto, instala-se mais um paradoxo, pois a esperança tira a possibilidade de felicidade do agora e o desejo produz o impulso de vida, para tomada de atitude, como o ato da vontade. Apesar de que o desejo, quando o desejante está sem fé, que é a confiança no Self, por conta do autoconhecimento que lhe confere autoestima, pode incitar a esperança que, por sua vez, afasta o sentimento de felicidade do momento presente, impedindo-o de agir no aqui e agora.

A falta de esperança não pode ser entendida como o fim de todas as possibilidades, porque a kenósis, que é o esvaziamento necessário para o surgimento do novo eu, como na tradição cristã, da ida de Jesus ao deserto e consequentemente ao sagrado, não retirou a presença das contínuas possibilidades da vida. Desta forma, a esperança pode ser apenas um modo próprio de ser e de ver as inúmeras vicissitudes que a vida possibilita. Do mesmo modo, ser e estar voltado para tudo, sem qualquer ilusão ou esperança, podem despertar a testemunha interior, possibilitando ampliação de consciência por meio da capacidade de se preceder a si mesmo, sem abandonar os desejos da alma, permitindo-se ser feliz com o que se tem e não com o que falta. Com isso, abandonar a esperança é poder viver a felicidade, com seus momentos de tristeza e de alegria. É poder viver o ordinário e o extraordinário como fases da própria existência, reconhecendo que, em cada fase, existe sabedoria, possibilidade de alegria e de tristeza, rumo ao caminho circumambular da evolução natural de tudo que aspira evoluir, mas com tomada de atitudes.

“A tarefa mais nobre da psicoterapia no presente momento é continuar firmemente a serviço do desenvolvimento do indivíduo. Procedendo desta forma, o nosso esforço acompanhará a tendência da natureza, isto é, faremos com que desabroche em cada indivíduo a vida na maior plenitude possível, pois o sentido da vida só se cumpre no indivíduo, não no pássaro empoleirado dentro de uma gaiola dourada.” (JUNG, 2011, v. 16/1, par. 229 – grifos meus).

De fato, ficar protegido, seguro, com acesso a todos os produtos e serviços que o capitalismo nos oferece, aparentemente, é muito confortável. Principalmente quando acreditamos, iludidamente, que tudo isso é fruto do nosso merecimento. Afinal de contas, a grande maioria das pessoas, que não está vivendo confortavelmente em suas gaiolas douradas, é porque não se esforçaram, não aproveitaram as oportunidades, não são predestinadas e, mesmo quando usam a desculpa de terem nascido em condições desfavoráveis, obviamente, nada podemos fazer porque Deus sabe muito bem porque fez isso com elas! Essas são as bases evangélicas desta teologia da prosperidade, desconsiderando a revolução trazida por Jesus Cristo no novo testamento.

Essa é a triste realidade que está assolando a humanidade! Um egoísmo sem fim, apesar de discursos de apoio a liberdade, a igualdade e a fraternidade, são como fogos de artifício, pura pirotecnia. Mais surpreendentemente ainda, são as afirmações, de grande parte da população que se diz pertencer a parcela que se autoproclama de “cidadãos de bem”, religiosos e, mais especificamente no Brasil, cristãos! Fico imaginando com Jesus Cristo reagiria a isso? Pessoas absolutamente insensíveis ao sofrimento alheio, apoiando tortura, violência, discriminação, desequilíbrio ambiental, competição territorialista, muros, entre outros retrocessos do antigo testamento, adeptos a Javé, um deus machista, vingativo e vaidoso, que prioriza o poder em detrimento do amor e, nesta direção, a realidade dos fatos sempre é manipulada quando o desejo de manutenção do poder vem a frente da democracia, da transparência e da ética.

A história nos ensina que todos os ditadores agiram despoticamente para satisfazer seus interesses e prazeres, afirmando estarem ditando a voz de deus, que deseja que ele se perpetue no poder para salvar o mundo e, de forma paranoica, tentam eliminar toda manifestação opositiva para dominar por meio do medo da maioria, fanatismo da minoria que se sente pertencente nas suas crenças, e impor sua “autoverdade”! Acredito que essa é a dinâmica do advento da nova besta, abusando deste universo distópico, com mentiras, pronunciamentos absurdos, ingerências, conflitos, caos e muita agressividade fortuita. Mas, como a evolução é inexorável, mais cedo ou mais tarde, esse retrocesso cairá, e todos os segredos acabam sendo secretados. Pena que, enquanto isso, os estragos, que são reais, produzirão muitos danos sociais, humanos, ambientais e psicológicos.

Olhar para fora da gaiola dourada, que equivale ao mito da caverna de Platão, não é tarefa fácil. Infelizmente, a minoria que se julga privilegiada está anestesiada em suas gaiolas, enquanto a maioria excluída, está igualmente anestesiada pela esperança, agora atualizada na teologia da prosperidade, onde os falsos profetas e messias, anunciam um futuro melhor, fazendo-os ficar inertes, apesar de estarem vulneráveis, por não terem as luxuosas gaiolas. Para aqueles que estão em suas gaiolas, em alguns casos até acontece o olhar para fora, mas é extremamente difícil sair delas para interagir com o outro excluído, sofrido, mal-amado e maltratado por esse sistema cruel e injusto, que gera cada vez mais exclusão. Jock Young, em: “Criminologia da Classe Trabalhadora” afirma que “É mil vezes mais fácil se tornar um acadêmico radical do que um operário militante: o primeiro curso de ação leva à editora Penguin Books Ltd., e o segundo à lista negra.”

Abrir mão, conscientemente, da esperança é poder se entregar ao tempo de Kairós, que é o momento presente. O tempo de Kairós, para mim, é o momento do colapso da onda, da tomada de consciência advinda da massa crítica do sofrimento existencial e da ampliação da consciência. É o resultado de um processo mercurial, no sentido de integrar a estética apolínea com a ética orgiástica e dionisíaca, que transcende o próprio tempo de Kronos (representante da castração temporal e das regras patriarcais). Então, Kairós é o insight transformador e integrador que possibilita o surgimento do terceiro elemento, o transcendente. Desta forma, pela ampliação da consciência voltada para o presente é que podem surgir os símbolos, no sentido de modificar os sintomas de adoecimento que estão paralisando tanto os indivíduos quanto as sociedades, para enfrentarmos a quebra do paradigma patriarcal, que neste momento está muito mais acirrado, para que surja a alteridade, a nova fase evolutiva da humanidade, onde o amor substituirá o poder, para que a igualdade, a fraternidade e a liberdade sejam a normalidade efetivamente praticada, e não apenas falada por autômatos desalmados.

Esse é chamado evolutivo! Precisamos adentrar na revolução aquariana, abrindo mão do deus vingativo, terrível, vaidoso, territorialista, representado, no ocidente, por Javé, do antigo testamento, para que sua manifestação evolutiva, após o confronto com Jó, em busca da alteridade, apareça anunciando a nova era, no novo testamento, na forma de Jesus Cristo, um deus amoroso e includente que abriu mão da esperança e se entregou para o seu chamado, com total ativismo sócio e espiritual, para que o desejo de que a paz esteja conosco seja realizado.

“As pessoas quando educadas para enxergar claramente o lado sombrio de sua própria natureza aprendem ao mesmo tempo a compreender e amar seus semelhantes. Pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e violência que praticamos contra nossa própria natureza.” (JUNG, 2011, v. 7/1, par. 28).

Para Jung, as neuroses podem levar o indivíduo, ou a sociedade, para seus íntimos: “só aquilo que somos realmente tem o poder de nos curar” (JUNG, 2011, v. 7/2, par. 258). Por isso, a psicoterapia não pode ser encarada apenas como um processo de eliminação de sintomas, mas para o redirecionamento das crenças e atitudes diante da vida, dele e do seu entorno. Por isso, quando o processo analítico acontece de fato, mortes simbólicas serão vivenciadas, desconstrução das crenças acontecerão, a capacidade metafórica e simbólica de ressignificar a vida, com atitudes voltadas para o cuidado do Todo, de forma integral e implicativa, passará a ser natural e, no lugar da esperança, o ativismo integrativo, amoroso e holístico passará ser a prioridade do investimento da energia psíquica. Porque, diante desde momento retrógrado, a superação dependerá do surgimento de uma rede amorosa de acolhimento, estimulando a crítica reflexiva e inclusiva onde, de fato, ninguém solte a mão de ninguém, para que todos se sintam pertencentes e lutem para preservar, amorosamente, Tudo e Todos.

 04 de agosto de 2019

Paz e Bem, graças ao reconhecimento e aceitação consciente da Guerra e do Mal que habitam em nós!

WALDEMAR MAGALDI FILHO. Psicólogo, especialista em Psicologia Junguiana, Psicossomática e Homeopatia. Mestre e doutor em Ciências da Religião. Autor do livro: “Dinheiro, Saúde e Sagrado”, Ed. Eleva Cultural, coordenador dos cursos de especialização em Psicologia Junguiana, Psicossomática, Arteterapia e Expressões Criativas do IJEP – Instituto junguiano de Ensino e Pesquisa (www.ijep.com.br), oferecidos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo.