A Arte da Terapia

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  1. Arteterapia – Histórico (Texto de Santina Rodrigues Oliveira)

Quando nos voltamos aos precursores da Arteterapia, estabelecida e reconhecida como uma abordagem terapêutica propriamente dita, nos deparamos com autores de diferentes partes do mundo, mas especialmente dos Estados Unidos.

Assim, em 1941, vemos Margareth Naumburg e Florence Cane praticando o que poderíamos chamar de Arte-Terapia de Orientação Dinâmica. Essas autoras americanas eram filiadas à Psicanálise, tendo como foco de seu trabalho pedagógico e terapêutico o aspecto projetivo e a interpretação dos conteúdos ocultos nos trabalhos criados pelos pacientes.

Em 1958, Edith Kramer, também nos EUA, dava prioridade ao fazer arte sem a necessidade de verbalização. Também era filiada à psicanálise, porém seu foco estava na observação do comportamento do paciente para além do produto final. Desse modo, a função do arte-terapeuta se transformava: da interpretação dos aspectos ocultos projetados sobre a peça criada pelo paciente, para a compreensão do meio, da linguagem plástica e de sua interferência no comportamento do indivíduo.

Em 1973, Janie Rhyne, autora americana filiada à Gestalt-terapia, propunha experimentos de contato, sensibilização e ‘awareness’ para o paciente entrar em contato com seus conflitos, expressá-los e reorganizá-los de acordo com novas percepções. Esta autora trabalhava com a noção de criatividade como uma habilidade humana de  transformar materiais da natureza com os mais diversos propósitos, ampliando, portanto, sobremaneira os limites da arteterapia.

Voltando-nos para o Brasil, ainda na década de 1920, encontramos o psiquiatra Osório Cesar coordenando um importante trabalho de expressão criativa de pacientes psicóticos internados no Hospital do Juqueri, em São Paulo. Ele foi, por assim dizer, o precursor no Brasil da análise da expressão psicopatológica de doentes mentais, com foco na análise da simbologia sexual presente nos trabalhos de seus pacientes, baseada na Psicanálise.

Nise da Silveira, por sua vez, deu início à ocupação do Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico D. Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1946. Diferente de Osório César, Nise dava ênfase à importância de se fazer arte no processo de integração da personalidade dos pacientes psicóticos e esquizofrênicos, independente do trabalho de interpretação ou tradução psicológica. A compreensão psicológica das imagens criadas pelos pacientes era pautada nos conceitos da Psicologia Analítica, de Carl Gustav Jung, porém não precisava ser comunicada ao paciente, já que Nise apostava mais no potencial da expressão das imagens do que em interpretações.

Embora a maioria desses autores não usasse o termo Arteterapia para identificar seu trabalho pedagógico ou terapêutico, reconhecemos em suas experiências e teorizações, elementos importantes para a consolidação da Arteterapia no Brasil e no mundo.

Mais recentemente, Liomar Quinto de Andrade (2000), pesquisador brasileiro, estabeleceu uma diferenciação importante entre três campos que apresentam intersecções com a Arteterapia:

Arte-Educação: O uso de recursos artísticos para desenvolver conhecimento de arte ou de outras disciplinas.

Arte-terapia: o uso de atividades artísticas, mais especificamente das artes plásticas, no processo psicoterapêutico, para facilitar a resolução de conflitos interiores afetivos e comportamentais.

Terapias Expressivas: o mesmo princípio da arte-terapia, mas abarca outras formas de manifestação artística e criativa, além das artes plásticas, como por exemplo, a música, a dança, o teatro.

Por fim, nas últimas duas décadas surgiram cursos de especialização por todo país, e uma infinidade de livros e publicações em Arteterapia, indicando que essa abordagem veio para ficar. Possivelmente, por oferecer elementos que respondem à demanda dos que buscam ajuda para lidar com as novas roupagens do sofrimento humano no mundo contemporâneo, sejam os próprios pacientes, que nem sempre se adequam aos métodos terapêuticos tradicionais pautados principalmente na comunicação verbal; sejam os terapeutas, que se vêm com a necessidade de ampliar seu repertório para ajudar aqueles que os procuram com base em novos recursos, e descobrem na expressão pré-verbal uma riqueza imensa para sensibilizar e promover transformações psicológicas.

2 – Arteterapia: apresentação:

“Sabe-se que a Arte em si tem grande valor terapêutico. Entretanto, esse fenômeno não é o mesmo que se passa com a Arte-Terapia ou com as Terapias Expressivas, que são diferentes formas de Psicoterapia, utilizando a arte dentro do processo terapêutico. (Carvalho, A Arte Cura? 1995, pág.24)

Assistimos desde o século XX a um grande acúmulo de conhecimento físico e tecnológico. Apesar dos bons frutos desse desenvolvimento científico, percebemos em paralelo uma fragmentação e um isolamento cada vez mais forte do ser humano na relação consigo mesmo e com o mundo em que se encontra inserido. Como contribuir para a integração de partes da personalidade que normalmente são excluídas ao longo do processo cultural e educacional, de modo a resgatar aspectos fragmentados do psiquismo no sujeito contemporâneo?

Sabemos que a arte tem grande valor catártico e expressivo. A arteterapia, por sua vez, é uma abordagem terapêutica baseada na concepção de que todo indivíduo, além de ter uma capacidade inata para expressar seus conflitos interiores em formas e imagens visuais, auditivas, táteis, e poéticas, entre outras, pode também elaborar novos sentidos para suas experiências por meio da materialidade dos objetos. Trata-se de uma modalidade de terapia com recursos técnicos e vivenciais que estimula diferentes possibilidades de expressão ao longo do processo terapêutico para que o paciente possa estabelecer uma ponte entre seu mundo interno (subjetivo) e o mundo que o rodeia (objetivo). Isso porque a linguagem poética e expressiva aliada à concretude dos objetos, permite ao indivíduo redescobrir a si-mesmo, e a partir daí reinventar suas relações no mundo.

O arteterapeuta pode trabalhar com diversos materiais das artes plásticas como por exemplo, papel, lápis, tintas, argila, carvão, entre outros, e oferecer informações básicas para que o paciente possa manipular esses materiais. Não é exigido do paciente talento artístico, pois o objetivo não é ensinar artes, no sentido usual, tampouco é emitido qualquer juízo crítico ou avaliação estética dos trabalhos criados pelo paciente. Qualquer pessoa pode tirar proveito desse processo: crianças, adolescentes, adultos, idosos, doentes mentais, dependentes químicos ou deficientes. Todos podem se beneficiar da possibilidade de se expressar de um modo livre, natural e intuitivo, exercendo o potencial humano da criatividade (Cf. CARVALHO, 1995).

O paciente é estimulado a se expressar mais espontaneamente, rabiscando, colorindo, desenhando, modelando, enfim, criando imagens, poesia, música, de acordo com seus próprios recursos pessoais. Será por meio dessas atividades que poderá expressar seus sentimentos, pensamentos, emoções, atitudes, descobrindo aspectos seus que antes não estavam claros, reconhecendo-se no que saiu de si, e na materialidade dos elementos concretos colocados à sua disposição.

A arteterapia contribui, também, para a expressão verbal na psicoterapia. Comumente, o discurso dos pacientes no início do processo terapêutico encontra-se bloqueado para se referir às suas sensações, sentimentos, idéias e fantasias. Ao expressar-se criativamente, o paciente começa a desenvolver a verbalização ao perceber o conteúdo afetivo associado às produções realizadas nas sessões terapêuticas. E desse modo, ao representar em imagens suas experiências subjetivas, seu discurso frequentemente se torna mais fluído, já que ele pode se expressar verbalmente com mais consciência sobre seu mundo psíquico.

A atividade expressiva, aliada ao trabalho de compreensão intelectual e emocional, facilita o encontro com as várias facetas da personalidade como um todo. Ao trazer à tona  imagens poéticas, o ser humano, ao mesmo tempo que mergulha nelas é por elas transformado.

Santina Rodrigues Oliveira – Analista Junguiana Didata do IJEP – Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa, Psicóloga, Mestre e Arteterapeuta.

Referências:

ANDRADE, Liomar Quinto de. Terapias Expressivas: Arte-Terapia, Arte-Educação, Terapia Artística. São Paulo: Vector, 2000.

CARVALHO, Maria Margarida (coordenadora). A Arte Cura? Recursos Artísticos em Psicoterapia. São Paulo: Editorial Psy II, 1995.

OLIVEIRA, Santina Rodrigues. Reflexões sobre a materialidade numa abordagem imagético-apresentativa: narrativa de um percurso teórico e prático à luz da psicologia analítica. Dissertação (mestrado) – Universidade de São Paulo. São Paulo, 2006. (Disponível em http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/47/47131/tde-15022007-220155/es.php)

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