Quando fiz minha pós-graduação em Arteterapia de Abordagem Junguiana, me foi ensinado que devemos privilegiar a atividade arteterapêutica ao invés da conversa. Fora da Arteterapia, na terapia convencional, algumas pessoas conseguem falar bastante, outras nem tanto, são mais fechadas. Nesses casos a Arteterapia é especialmente boa, eu, particularmente, a considero algo bom para todos. Através da criação artística conseguimos falar coisas que passam despercebidas durante o diálogo, justamente por serem conteúdos inconscientes.

Assim que comecei a atender, que foi algo bem recente, em fevereiro de 2017, percebi que não é todo dia que o cliente deseja parar e criar sua arte. Não quer desenhar nem pintar, muito menos recortar e colar, por algum motivo ele está ali sentindo uma angústia que o paralisa e naquele momento, não se sente à vontade para fazer arte. Acredito que sempre devemos proporcionar todo o ambiente, uma atmosfera adequada com tranquilidade e acolhimento. Aliás, acolhimento é a palavra para que a pessoa possa se sentir confortável e segura para desenhar (ou usar qualquer outra técnica) e se expressar. Mas talvez, existam momentos nos quais as pessoas precisem apenas ser ouvidas. Talvez precisem da sua empatia. Apesar dessa modalidade terapêutica ser diferente, ser Arteterapia, acho necessário que em alguns momentos possamos abrir espaço para a escuta.

Tenho clientes que não têm dificuldade de desenhar. Eles chegam, conversam um pouco e então, fazemos um breve ritual de acalmia, pois quando se chega da rua para o atendimento, muitas vezes, a atenção está em outro lugar, está no ambiente agitado da cidade, nos barulhos e estresses urbanos. Nos sentamos, respiramos fundo algumas vezes, falamos sobre a semana e na sequência, peço para que a pessoa faça um desenho. Às vezes trabalhamos algo da temática da conversa que acabamos de ter, outras vezes o cliente acaba trazendo alguma demanda que nem ele sabe de onde apareceu.

Em alguns momentos enfrentei situações onde não havia jeito, naquele dia especificamente, a pessoa não se sentia confortável o bastante para desenhar e eu precisei ouvir. Tive que fazer a escuta terapêutica. Sei que isso não é algo que os arteterapeutas foquem muito, pois o objetivo na Arteterapia não é esse, não é ficar falando, mas na prática, o mundo se mostra bem diferente. Quando saímos a campo, a coisa é outra. Nos livros a teoria é linda e está tudo certo, tudo em ordem, tudo fechado, “redondo” e os desafios não aparecem, mas na vida, as coisas não são bem desse jeito. Na vida, precisamos adaptar essa teoria que aprendemos formalmente à pessoa, ao cliente. O ser humano não é um quadradinho ou uma fórmula matemática, cada indivíduo é um ser único e eu senti isso. Observei que não há como impedir, existe um dia que preciso ouvir e acolher.

Sentindo essa necessidade crescente de saber e de aprender como é feita a escuta terapêutica dentro da Psicologia Analítica, acabei decidindo por me aprofundar nos estudos junguianos e fui para um segundo curso de pós-graduação na área.

Neste momento faço o curso de especialização em Psicologia Junguiana do IJEP, pois tenho interesse em adquirir mais recursos para poder amparar melhor e com mais propriedade essa pessoa que chegar em mim.

Não tenho a intenção de substituir a prática arteterapêutica, mas acredito ser algo muito positivo, que o arteterapeuta junguiano aprofunde seus estudos na Psicologia Analítica e que também procure outras técnicas complementares de acolhimento aos seus clientes. É muito bom poder estudar e conhecer novas técnicas de arte, mas é importante saber ouvir. O próprio Jung disse para nos familiarizarmos com a teoria, mas quando estivéssemos na frente de um cliente, teríamos que nos despir disso tudo e lembrar sempre que somos apenas um ser humano na frente de um outro ser humano. Claro que este outro ser humano não é um amigo nem seu familiar, e sim, seu cliente. É importante saber ouvi-lo e não praticar abusos. Acho que não devemos falar mais que ele, mas se naquele dia específico ele quiser falar, deixe-o falar. Que isso não se torne uma regra, pois estamos ali para criar arte e não uma arte qualquer, uma arte específica, terapêutica, uma arte que ajuda, que trata, que cura, mas no dia que for preciso, saibamos acolher e escutar.

*Maria Estela Naclério Homem – Arteterapeuta (Registro SOBRARTE: 06-10545)

COMPARTILHAR